Entrevista Allan Mitelmão

Entrevista Allan Mitelmão – Ipanema Plus

Entrevista do Allan Mitelmão para Ipanema Plus
Em entrevista à Ipanema Plus, Allan Mitelmão, fundador da Just Intercâmbios, falou sobre sua experiência à frente da diretoria Belta, revelando quais são os principais agentes motivadores para a realização de um intercâmbio e o quanto essa experiência agrega ao crescimento pessoal e profissional de pessoas de todas as idades. Essa leitura é indispensável para quem busca novas perspectivas.

Confira abaixo a entrevista completa:

CONHECER O MUNDO

Não importa sua idade, se sabe alguma coisa do inglês. Seja qual for sua condição é possível ingressar num programa de intercâmbio e viver um período fora do Brasil. Aliás, esse é um interesse que só cresce e os números são claros ao demonstrar isso. Em 2003, 34 mil brasileiros saíram do Brasil para estudar (a maioria absoluta para aprender o idioma inglês) e as estimativas para este ano de 2017 é que 275 mil brasileiros vão viver essa experiência. Desse total, pelo menos 2 mil deles são de Sorocaba. Quem revela todos estes dados é Allan Mitelmão, sorocabano, ex-intercambista, empresário e que hoje faz parte da diretoria da Belta – Associação Brasileira das Agências de Intercâmbio – entidade que trabalha para manter a ética e o profissionalismo neste segmento. Ele explica que para uma agência fazer parte da Belta, ela precisa ter um tempo mínimo de mercado, hoje de três anos, recomendação de instituições estrangeiras, carta de recomendação de agências associadas, passar por uma investigação financeira. Assim ela ganha uma espécie de selo de qualidade e garantia para levar segurança ao consumidor, ou seja, ao intercambista. A prova da importância de ser uma agência Belta é que 75% do volume dos estudantes que saem para o exterior saem por agências com selo Belta que, hoje, reúne 400 pontos associados em território nacional. Nesta entrevista, Allan explica como ele sai de Sorocaba para estar na direção dessa associação nacional e disseca o que significa fazer um intercâmbio. Boa leitura!

Deda: Como você, aqui de Sorocaba, foi dirigir essa associação nacional?

Allan: Como agência [Allan é proprietário da Just Intercâmbios] faço parte da Belta desde 2002, participando das assembleias, discutindo para o mercado o que seria positivo para consumidores e agências. Já tinha recebido alguns convites até por estar sempre na linha de frente, já fui um intercambista, fui convidado, resisti, entendi que não era o momento, porque querendo ou não você acaba tendo que investir muito tempo para a associação e o seu negócio tem que andar sozinho. Hoje, felizmente, minha equipe consegue, a empresa anda por si só e senti que era o momento que eu poderia dedicar mais tempo de maneira adequada para projetos. Como diretor de operações tenho como responsabilidade selecionar fornecedores, parceiros, para associadas. Isso demanda investigação, entrevista, teste, saber sobre idoneidade, entender que isso será interessante para todo mundo, então isso demanda tempo. O que tem sido um ótimo aprendizado.

Deda: Quando falamos em intercâmbio, a busca essencial é pelo aperfeiçoamento ou aprendizado do idioma inglês, é isso?

Allan: Idioma em geral é o mercado mais forte no Brasil e o inglês, especificamente, é o que mais desperta o interesse. Mas outros idiomas, como o espanhol e o alemão (que em nossa região tem uma procura relevante em razão das empresas de origem alemã que aqui estão instaladas) também são procurados. Mas, sem dúvida, o inglês é disparado o curso de intercâmbio que mais chama a atenção. De cada dez pessoas que procuram por intercâmbio, oito estão em busca do idioma.
A busca inicial pelo intercâmbio até pode ser por algum outro caminho (como um curso de pós-graduação), mas se não houver o domínio do idioma não adianta pensar em especialização, por isso a busca pelo domínio do idioma ainda é o principal atrativo a quem busca o intercâmbio.

Deda: Para quem vai fazer intercâmbio é necessário ter um certo conhecimento do idioma? Ou é possível ir ao intercâmbio mesmo sem conhecer o idioma o qual está indo aprender?

Allan: Lógico que a pessoa que sai do Brasil para fazer um curso no exterior sem conhecer nada do idioma tem um caminho com “mais adrenalina”, mas não há um pré-requisito básico para isso, não há teste para ingressar num curso geral de idiomas, seja qual língua for, até porque se pararmos para pensar as escolas estão preparadas para receber o asiático ou qualquer outra nacionalidade que tem mais difi culdade no idioma do que qualquer brasileiro. Nós, aqui no Brasil, temos, por exemplo, palavras em inglês que já fazem parte do nosso cotidiano. Não há essa necessidade de ter uma base do inglês para poder fazer o intercâmbio, portanto. Mas, lógico, que é interessante ter alguma base.

Deda: O ensino do idioma inglês faz parte do ensino oficial do Brasil pelo menos desde a década de 1980 para cá (anteriormente era o francês). Mas a sensação que temos é que nas escolas, sejam nos ensinos Fundamental e Médio, essa relação de ensino e aprendizado não funciona, muitas vezes, tão bem, por isso existem tantos cursos de idiomas que veem um nicho de mercado nessa falha. Essa é a sua percepção também?

Allan: Para o que o mercado de trabalho espera, em termos de naturalidade e fluência no domínio do inglês, essa é uma realidade. Mas acho que embora seja nítido o avanço que tem acontecido nessa relação de ensino e aprendizado, com o investimento das escolas, em especial as particulares, ainda a questão de se alcançar a fluência, naturalidade de um segundo ou terceiro idiomas buscados pelo mercado, entendo que ainda não se consegue no Brasil. É a questão da prática. Como você tem pouca oportunidade no Brasil de falar em inglês fora daquele ambiente que você se propôs a falar, seja na escola, na empresa multinacional, há pouco contato com estrangeiros. Isso muda um pouco dependendo da região onde a pessoa vive em São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas a realidade é que você pode praticar do que aprende no ensino do inglês no Brasil.

Deda: E quanto ao aprendizado do idioma inglês, no que diz respeito à característica, a gente vê o americano falando de um modo e nos países do lado da Europa, há outra dicção. Como funciona isso no momento de escolher onde ir para aprender o idioma?

Allan: Eu me lembro quando eu comecei com intercâmbio, em 1999, e a dúvida sempre foi e é a mesma: fazer inglês em outro país que não seja Estados Unidos vale a pena? Existe uma linha de pensamento um pouco mais tradicional que afirma que o inglês tem que ser o inglês americano. Mas atualmente eu vejo que o mercado pede que se fale em inglês, independentemente do sotaque. Prova disso (e a gente está falando de escolas de inglês daqui do Brasil) é que cada vez mais essas escolas investem em professores nativos de várias nacionalidades. Então hoje temos o professor ensinando inglês de origem irlandesa, australiana, escocesa, neozelandesa e britânica. Um profissional não pode dizer que fala em inglês, mas só entende o americano. E hoje você tem mais pessoas que têm o inglês como segundo idioma no mundo do que como primeiro idioma. Então para conversar com um russo falando em inglês, ou com um chinês, você tem que ter o seu ouvido preparado. Agora, importante ressaltar, que vizinho dos Estados Unidos, o país hoje que mais desperta interesse aos intercambistas do Brasil é o Canadá, onde o idioma inglês falado é mais claro, quase que uma espécie entre o que se fala nos Estados Unidos e o que se fala no Reino Unido. Para explicar isso, lembro das diferenças de região aqui no Brasil. O português falado aqui em Sorocaba, no Rio de Janeiro, no Nordeste, Sul, tem seus sotaques diferentes e próprios.

Deda: Onde se concentram mais os brasileiros que vão fazer intercâmbio? No lado da Europa ou da América?

Allan: Existem cinco principais destinos. Canadá é o primeiro colocado, costumo dizer que o Canadá abocanhou o mercado desde 2001, depois dos atentados de 11 de setembro. Mas os Estados Unidos seguem em segundo lugar e aí estão Inglaterra, Austrália e Irlanda. Esses três últimos vão trocando de posição no nível de interesse de ano para ano, mas o Canadá se mantém na liderança do interesse e os Estados Unidos em seguida.

Deda: Se verifica um crescimento mais do que exponencial ao longo dos últimos dez, quinze anos, na saída de brasileiros para fazer intercâmbio de idiomas. Em 2003, foram registrados 34 mil brasileiros que saíram para fazer intercâmbio e esse número saltou para 250 mil brasileiros em 2016, com projeção de até 275 mil brasileiros em 2017. Há intercâmbio para todos os bolsos? Como que funciona?

Allan: Hoje o intercâmbio cabe no orçamento de qualquer pessoa ou família sem dúvida alguma. Mas, claro, que o preço depende do projeto da pessoa que busca o intercâmbio. É importante ressaltar que o intercâmbio vai auxiliar o intercambista num projeto de vida, afinal além do idioma, essa pessoa terá um ganho para sua carreira profissional pois além de aprender a língua ele vai viver uma experiência multicultural única.
Ele passa a viver uma realidade, passa a ser uma pessoa mais flexível, entende que existem culturas diferentes não tem melhor ou pior, mas são diferentes, e em um mundo tão globalizado como a gente vive, esse valor profissional é extremamente valorizado.
Explicado isso, afirmo: há sim programas para quem quer fazer duas semanas de aula, programas de férias, pessoas que tiram férias por trinta dias para capacitação fora, há como fazer o Ensino Médio, há o profissional que quer fazer uma recolocação no mercado, pessoal da terceira idade, o chamado turismo educacional, o familiar, quem vai fazer pós-graduação. São variadas as possibilidades e preços. Mas, ainda, existe até quem tem muito pouco para investir num intercâmbio. A maioria das pessoas que busca hoje o intercâmbio está na faixa dos 14 aos 26 anos e para quem quer ir e não tem dinheiro suficiente, existem três países em que há permissão de trabalhar: Austrália, Irlanda, Nova Zelândia, para quem vai fazer inglês.

Deda: Após o intercâmbio, o profissional é alguém diferenciado no mercado de trabalho… Esse é o diferencial que as agências de intercâmbio enxergam em quem busca sair do Brasil para aprender o inglês?

Allan: Recentemente a Belta organizou um debate no Fórum de Educação Internacional e convidamos profissionais de Recursos Humanos para que eles pudessem explicar num processo de seleção de emprego qual o peso tem esse tipo de experiência que apenas o intercâmbio propicia. Hoje em dia o idioma é fundamental, não é mais apenas diferencial, na hora de selecionar um funcionário. Portanto, sair da zona de conforto numa experiência internacional, de viver longe da família e amigos agrega um valor a mais a esse candidato a um emprego. A empresa quer um funcionário proativo, que respeite o próximo e as pessoas que fizeram intercâmbio demonstram essas qualidades.

Deda: Você reforça que além do idioma, o intercâmbio propicia um conhecimento pessoal que faz a diferença na vida do intercambista e é valorizado pelo mercado de trabalho. Agora, como é morar em casa de família, ou seja, um jovem sai da casa dos pais e vai para uma casa onde ele é um estranho?

Allan: Isso culturalmente falando é absolutamente comum. Temos que lembrar que nós temos essa escassez de intercambistas por aqui em razão do nosso idioma, ou seja, é difícil atrair alguém para vir ao Brasil aprender português. Mas essa recepção faz parte da cultura inglesa e os países que nasceram dela. Importante ressaltar que, culturalmente, uma família que tem um jovem, aos 18 anos ele sai de casa, às vezes para morar na mesma cidade, porque se ele ficar morando na casa dos pais ele é visto como uma pessoa fracassada, mal sucedida. Na Suíça, se um jovem depois dos 18 anos quiser ficar na casa dos próprios pais ele fica, mas paga aluguel. Isso mesmo paga um aluguel para os pais. As pessoas criam os filhos, depois os quartos de suas casas ficam vazios e elas começam a receber os alunos de fora, é uma renda para eles. Então, até vejo lógica na sua pergunta e ela desperta mesmo muita preocupação nos jovens que saem do Brasil que vão para o intercâmbio, pois isso não faz parte da nossa cultura, mas faz da deles. Alguém consegue imaginar um jovem de 18 anos pagando aluguel para os pais aqui no Brasil? Não pois não é da nossa cultura, mas é da deles.

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